Sim — e acho que sua observação sobre o Salmo 136 expõe um problema importante na maneira como às vezes definimos essas palavras de forma excessivamente rígida.
Frequentemente ouvimos:
Graça = Deus me dá aquilo que eu não mereço.
Misericórdia = Deus não me dá aquilo que eu mereço.
Essa distinção pode ser útil como recurso didático, mas o vocabulário bíblico é consideravelmente mais rico e mais sobreposto do que essa fórmula sugere. O Salmo 136 é um excelente exemplo.
O Antigo Testamento certamente possui conceitos distintos que correspondem a graça, favor, compaixão e misericórdia. Mas o hebraico não os organiza exatamente nas mesmas categorias conceituais que às vezes criamos no vocabulário cristão em português.
🌿 As principais palavras do Antigo Testamento
Várias palavras hebraicas são importantes aqui.
חֵן (ḥēn) — favor, graça
Este é provavelmente o termo do Antigo Testamento mais próximo daquilo que comumente chamamos de “graça” ou “favor”.
“Porém Noé achou graça diante do SENHOR.”
— Gênesis 6:8
Noé achou favor. A ênfase está na disposição favorável de Deus para com alguém e no favor concedido a essa pessoa.
Moisés usa a mesma linguagem repetidamente:
“Se achei graça aos teus olhos…”
— Êxodo 33:13
Portanto, a graça certamente é uma realidade do Antigo Testamento, e o vocabulário para ela está presente.
Depois temos:
רַחֲמִים (raḥamim) — compaixão, terna misericórdia
Essa família de palavras possui associações extraordinariamente ternas. Expressa profunda compaixão, piedade e afeição.
“Como um pai se compadece de seus filhos,
assim o SENHOR se compadece dos que o temem.”
— Salmo 103:13
E então chegamos à palavra imensamente importante do Salmo 136:
חֶסֶד (ḥesed)
Essa é a palavra traduzida em várias Bíblias em português como misericórdia, amor constante, benignidade, amor fiel, amor da aliança e, às vezes, simplesmente amor.
E ḥesed é muito maior do que nossa definição estreita de misericórdia como “não receber a punição merecida”.
Essa é a chave para o Salmo 136.
❤️ “Sua misericórdia dura para sempre” significa muito mais do que reter a punição
Cada versículo do Salmo 136 termina com:
“Porque a sua misericórdia dura para sempre.”
A palavra hebraica é ḥesed.
E veja o que esse ḥesed faz.
Deus cria os céus:
“Àquele que com entendimento fez os céus,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:5
Ele cria o sol, a lua e as estrelas (Salmo 136:7–9).
Ele liberta Israel do Egito:
“E tirou a Israel do meio deles,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:11
Ele divide o Mar Vermelho (Salmo 136:13).
Ele conduz Seu povo pelo deserto (Salmo 136:16).
Ele lhes dá uma herança (Salmo 136:21–22).
Ele Se lembra deles em sua humilhação (Salmo 136:23).
Ele os livra de seus adversários (Salmo 136:24).
E então o Salmo de repente universaliza tudo:
“E dá alimento a toda carne,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:25
Portanto, você está absolutamente certo em perceber a dificuldade.
Se definirmos misericórdia exclusivamente como “Deus retendo a punição que merecemos”, o Salmo 136 se torna muito estranho.
Criar o sol não é reter punição.
Dar Canaã a Israel não é meramente reter punição.
Alimentar toda criatura não é meramente reter punição.
Libertar Israel da escravidão não é meramente reter punição.
Esses são atos positivos da generosidade divina.
Em nosso conhecida abreviação teológica, instintivamente chamaríamos muito disso de graça.
Contudo, o salmista repetidamente chama isso de ḥesed.
🤲 Porque ḥesed descreve a bondade comprometida de Deus
É aqui que o conceito hebraico se torna belo.
Ḥesed contém ideias que o português tem dificuldade de expressar com uma única palavra:
amor, lealdade, fidelidade, bondade, misericórdia, compromisso de aliança, benevolência.
Não é meramente:
“Vou me abster de feri-lo.”
É muito mais próximo de:
“Coloquei sobre você Meu amor fiel e, por isso, agirei para o seu bem.”
Essa ação certamente pode incluir perdão e a retenção do juízo merecido.
Mas também pode incluir dar.
Proteger.
Alimentar.
Libertar.
Guiar.
Lembrar.
Preservar.
Cumprir promessas.
Dar uma herança.
Essa é exatamente a progressão do Salmo 136.
Portanto, “misericórdia” não é uma tradução errada. É uma tradução antiga e bela. Mas leitores modernos podem ouvir na palavra misericórdia algo mais estreito do que o leitor hebreu teria ouvido em ḥesed.
“Amor constante” ou “amor fiel” frequentemente comunica outra dimensão dessa palavra.
📖 E o próprio Antigo Testamento distingue essas qualidades
Há uma passagem maravilhosa em que Deus coloca vários desses conceitos lado a lado, em vez de reduzi-los a um só.
Quando Deus revela Seu nome e Seu caráter a Moisés:
“SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade…”
— Êxodo 34:6
Essa passagem é imensamente importante porque vários conceitos hebraicos distintos aparecem juntos.
Deus é compassivo (raḥum).
Deus é gracioso (ḥannun).
Deus é abundante em ḥesed — traduzido aqui como “misericórdia”.
E Ele é fiel/verdadeiro (‘emet).
Depois:
“que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado…”
— Êxodo 34:7
Portanto, sim: o Antigo Testamento é absolutamente capaz de distinguir graça, compaixão, amor fiel, perdão e misericórdia.
São atributos e ações relacionados do mesmo Deus, mas não são linguisticamente idênticos.
E, de modo significativo, o Salmo 136 se apoia fortemente nessa revelação veterotestamentária do ḥesed de Deus.
✨ O Novo Testamento não inventa subitamente a graça
Essa é outra distinção importante.
Não devemos pensar:
Antigo Testamento = misericórdia
Novo Testamento = graça
O vocabulário do Novo Testamento se torna extraordinariamente rico em torno de charis — graça — especialmente em Paulo, mas a realidade já estava presente em todo o Antigo Testamento.
O próprio Paulo lê explicitamente o Antigo Testamento dessa maneira.
Falando sobre o tempo de Elias, ele diz:
“Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça.”
— Romanos 11:5
E Paulo descreve a justificação de Abraão em termos de graça, e não de salário (Romanos 4:1–5, 16).
O Deus que salvou Abraão, Moisés, Davi e Israel não estava operando segundo algum sistema anterior à graça.
A graça percorre toda a história bíblica.
João deixa isso particularmente claro ao descrever Cristo:
“Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.”
— João 1:17
Isso não significa que não havia graça antes de Jesus. João acabara de dizer:
“Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça.”
— João 1:16
Antes, em Cristo a graça alcança sua revelação e encarnação históricas culminantes.
🔥 O Salmo 136 realmente nos impede de separar misericórdia e graça de forma rígida demais
E acho que isso chega ao cerne de sua observação.
Suponha que Israel esteja do outro lado do Mar Vermelho.
O que acabou de acontecer?
Deus não apenas Se absteve de julgar Israel.
Ele ativamente:
ouviu-os,
lembrou-Se de Sua aliança,
enviou Moisés,
derrotou Faraó,
protegeu Israel,
dividiu o mar,
conduziu-os através dele,
destruiu seu opressor,
guiou-os pelo deserto
e, por fim, deu-lhes uma herança.
O Salmo 136 olha para tudo isso e diz:
“Porque o Seu ḥesed dura para sempre.”
Nossas categorias poderiam dividir esses atos:
“Esta parte é misericórdia.”
“Esta parte é graça.”
“Esta parte é providência.”
“Esta parte é fidelidade.”
“Esta parte é amor da aliança.”
A palavra hebraica quase os reúne e diz:
É assim que o amor fiel, misericordioso e preservador da aliança de Deus se manifesta quando age.
E isso é muito mais rico.
🩸 Há até algo impressionante nos juízos do Salmo 136
O Salmo diz:
“Àquele que feriu o Egito nos seus primogênitos,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:10
E:
“Mas precipitou no Mar Vermelho a Faraó e o seu exército,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:15
Isso seria extremamente difícil se ḥesed significasse simplesmente “não punir alguém”.
Porque punição está acontecendo!
O salmista pode celebrar o ḥesed de Deus enquanto Deus exerce juízo.
Por quê?
Porque o refrão diz respeito ao amor fiel de Deus para com Seu povo da aliança. Seu juízo sobre os opressores deles se torna o meio pelo qual Seu compromisso fiel com Israel é manifestado.
Isso se conecta belamente com nossa discussão anterior: misericórdia e juízo nem sempre são opostos.
Às vezes, o juízo de Deus contra aquilo que destrói Seu povo é, em si mesmo, uma expressão de Seu amor fiel para com eles.
🌅 E o versículo 25 nos leva diretamente de volta à graça comum
Então vem aquele fascinante movimento final:
“E dá alimento a toda carne,
porque a sua misericórdia dura para sempre.”
— Salmo 136:25
Não apenas Israel.
Toda carne.
Os animais comem porque Deus é bom.
Os ímpios comem porque Deus é bom.
Os justos comem porque Deus é bom.
O mundo continua recebendo da mão aberta de Deus.
O Salmo 145 diz essencialmente a mesma coisa:
“Em ti esperam os olhos de todos,
e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento.
Abres a mão
e satisfazes de benevolência a todo vivente.”
— Salmo 145:15–16
Isso está muito próximo do que estávamos discutindo sobre a graça comum.
E aqui creio que sua observação se torna especialmente fecunda:
Aquilo que chamamos de “graça comum” pode legitimamente ser descrito, na linguagem do Antigo Testamento, como uma expressão do ḥesed de Deus, de Sua bondade, compaixão e generosidade.
As categorias bíblicas se sobrepõem porque, em última análise, descrevem diferentes facetas da atividade e do caráter de um só Deus.
❤️ Talvez nossas pequenas definições sejam simplesmente estreitas demais
“Graça dá o que não merecemos; misericórdia retém o que merecemos” não é errado como recurso de memorização.
Mas eu não o usaria como um dicionário bíblico rígido.
A misericórdia pode dar.
A graça pode perdoar.
A compaixão pode resgatar.
O amor pode disciplinar.
A fidelidade pode julgar.
E ḥesed pode abranger uma variedade extraordinária das ações benevolentes e fiéis de Deus.
Isso torna a repetição do Salmo 136 muito mais poderosa.
Vinte e seis vezes o salmista não quer dizer meramente:
“Deus não nos puniu.”
Ele quer dizer algo muito maior:
Ele criou.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele libertou.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele guiou.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele conquistou.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele deu uma herança.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele Se lembrou de nós quando estávamos abatidos.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele nos resgatou.
Seu ḥesed dura para sempre.
Ele alimenta toda criatura viva.
Seu ḥesed dura para sempre.
Portanto, talvez “misericórdia” no Salmo 136 não deva ser reduzida ao fato de Deus reter Sua mão de juízo. É a bondade fiel de Deus estendendo Sua mão para dar.
E isso torna o refrão consideravelmente mais abrangente do que nossa distinção moderna entre graça e misericórdia pode sugerir à primeira vista.